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Categoria: Interviews 2020 - Portuguese
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Paz não é uma definição, é uma experiência interior
Leia o artigo original em em espanhol aqui.

Prem Rawat Interview Cambio16

1. O que é paz? Ela pode ser definida?

Paz é um sentimento. Em última análise, sim, sempre podemos tentar defini-la, e as pessoas vêm tentando fazer isso há muito, muito tempo.

Mas, no final das contas,  paz é um sentimento. Parece um pouco com a comida. Você pode falar de comida o quanto quiser, mas sua fome só vai desaparecer quando você se alimentar e a sensação, então, será de satisfação. Não é algo objetivo, e sim, subjetivo. Do mesmo modo, creio que o mundo vem tentando tornar a paz objetiva, mas, na realidade, ela é subjetiva, pois é vivenciada no nível pessoal. É algo de que falo em meu livro.

2. A paz é para todos? Ou algo somente para as almas antigas, ao contrário das almas novas?
A paz é para todos, porque já está dentro de todos os seres humanos.

3. Você foi nomeado por diversas instituições como Embaixador da Paz, tarefa difícil, dadas as ameaças atuais contra a humanidade: guerras, pobreza, violações de direitos humanos, pandemias, aquecimento global, etc. A paz pode ser alcançada nessas circunstâncias?

Precisamos entender o que paz realmente é: uma experiência que se encontra dentro de cada ser humano. Não é a remoção das guerras. Não é a remoção dos problemas que as pessoas têm. Temos que entender que os problemas pelos quais as pessoas estão passando, que consideramos como guerras, etc… todas essas coisas que você mencionou são sintomas de alguma coisa. Não são a verdadeira doença. São sintomas. A paz é a experiência verdadeira. Quando as pessoas não a vivenciam, os sintomas ocupam o lugar.

4. A maioria dos seres humanos não diretamente afetada pelas ameaças mencionadas vive em um mundo frenético, para dizer o mínimo. Como alguém pode encontrar paz estando submetido a tanto ruído e confusão?

O problema é que a paz reside dentro dos seres humanos. Essas manifestações ocorrem quando a pessoa não conhece a si mesma. Essas são as consequências do que acontece. Quem está tornando o mundo um local frenético? Serão as árvores? Serão as azeitonas nas oliveiras? São as flores? São as borboletas? Ou são os seres humanos? Todos esses problemas de que não gostamos são também criados por seres humanos que precisam de paz. E a ironia está no fato de que eles já têm paz dentro de si, mas não seguem  a fórmula simples do “Conheça a si mesmo”. Não se conhecem..

5. O que causa mais perturbação: o ruído externo ou o ruído interno?

O ruído interno, sempre. Para evitar o ruído externo, você pode usar protetores. Mas e o ruído interno? Como se proteger dele? Portanto, o ruído interno é o que causa o pior problema.

6. Algumas pessoas em busca de paz optam pelo confinamento solitário ou por viver nas montanhas. É o único caminho? Pode-se encontrar paz na vida cotidiana?

A paz não está em uma montanha. A paz não está no fundo do oceano. A paz está dentro de você. Aonde quer que vá, você leva a paz.

Assim como você leva a raiva com você. Você não tem como sair de casa e dizer “Certo, deixei a raiva em casa”. Você pode ir para o topo de uma montanha e ficar zangado, porque levou a raiva junto. Você leva todos esses elementos aonde quer que vá, mas a beleza de tudo é que também leva a paz consigo aonde vai. E essa é a escolha que  você precisa fazer.

7. A paz pode ser ensinada? Em caso positivo, precisamos atualizar nosso sistema educacional para incluir outros tipos de conhecimentos, como meditação, paz, humanidade, etc…?

Um  interesse genuíno precisa ser criado para que as pessoas possam começar a descobrir a paz que reside nelas.

Essa é a única parte que pode ser ensinada. A paz em si mesma não pode ser ensinada e eu exploro isso em meu livro.

8. Na antiguidade clássica grega, Sócrates encorajava o autoconhecimento: “Conhece a ti mesmo”, dizia. É essa a chave para conseguir paz?

Certamente.

9. O que aprendemos quando ouvimos a nós mesmos?

Aprendemos sobre nós próprios, não sobre o ruído. Quando ouvimos o barulho ficamos mais confusos. Mas quando verdadeiramente ouvimos a nós mesmos, podemos ouvir nossas necessidades, não nossas vontades. O ruído tem a ver com vontades. O coração fala das necessidades e elas precisam ser satisfeitas para que possamos estar completos, em paz, em alegria.

10. O que arriscamos quando escondemos nosso ser verdadeiro e vivemos uma vida inconsciente?

É só você olhar para o mundo hoje. Falo disso em meu livro.

11. Equilíbrio e conexão consigo mesmo e com o ambiente parecem os elementos essenciais para a descoberta da paz. É possível isso em um ambiente que está morrendo devido a nossas próprias ações?

Isso se deve a nossas ações. Nós escolhemos nossas ações. Podemos também optar por trazer alegria e felicidade a nós mesmos. Essa é a escolha que temos que fazer. Às vezes fingimos não ter opção nesse quesito. Por isso a mensagem de Sócrates era “Conhece a ti mesmo”. Significa que você tem a opção de conhecer a si mesmo. E é o que precisamos escolher. Precisamos escolher o bem.

12. O que é mais difícil: aceitar a morte ou aceitar a vida?

Aceitar a vida é muito, muito mais difícil. A morte é irreversível. Vai acontecer e não tem nada que você possa fazer a respeito. Vai chegar, vai acontecer. Mas a vida acontece a cada dia. Você precisa fazer uma escolha, se quer estar com ela ou não.

13. Albert Camus disse que “o inferno são os outros”. Paraíso e inferno são reais? O que são?

Paraíso e inferno conforme os conceitos das pessoas, se são reais ou não, não sei dizer. Mas o paraíso e o inferno que criamos neste planeta para nós mesmos são muito, muito reais. Inferno é quando alguém é negligenciado, quando alguém vive inconscientemente, quando atropela os outros, quando não vê nada além de ganância, porque não tem apreciação: isso é inferno. Quando crianças ficam com fome, quando as pessoas são mal educadas, quando as pessoas não são bem tratadas: isso é inferno.

Quando ser simplesmente humano é inaceitável, pois é preciso ser algo mais, então criamos o inferno.

Paraíso é quando nos importamos com todos, não apenas conosco, mas nos importamos com as pessoas ao nosso redor e criamos um mundo melhor. Pratique a paz, mude seu mundo. Tenho um capítulo sobre isso em meu livro.

14. Mesmo com todos os problemas, há filósofos e pensadores achando que vivemos um segundo Renascimento. Outro despertar de consciência coletiva para criar uma nova versão de humanismo. Você acredita que estamos vivendo um segundo Renascimento? Como o descreveria?

Eu adoraria acreditar que o mundo está vivendo um segundo Renascimento, mas não está. Porque mesmo que mais e mais pessoas pareçam interessadas na ideia de paz, pouco está sendo feito na realidade para alcançá-la.

Aparecem com definições de paz, do que é a paz, que não têm nada a ver com paz. É tentar fazer de algo muito subjetivo algo objetivo, porque assim fica muito mais conveniente para todos.  E então surgem algumas  afirmações: “Paz é isso” “Paz é sucesso”. Sucesso é sucesso. O sucesso pode trazer o fracasso incorporado a ele. Você pode ter que fracassar dez vezes até conseguir o sucesso. Paz é paz. A paz está dentro de você. Você precisa se voltar para dentro para sentir a paz. Renascimento, gostaria, mas não é.

15. E também se debate se este novo Renascimento está veloz por causa de mudanças tecnológicas. Podemos usar as mudanças tecnológicas para buscar a paz também? Uma tecnologia mais humanizada?

A tecnologia está nos afastando de nós mesmos, sempre mais e mais. Está nos pondo num vácuo de olhar para os outros e pensar: o que os outros vão pensar de nós?

Precisamos de tecnologia que nos leve de volta para casa, para nós. Somente assim a tecnologia terá um papel no que é real, um ser humano real sentindo paz em sua vida, não em sua cabeça mas sim em seu coração.

16. Para concluir, você poderia resumir brevemente para nosso público o que eles descobrirão e aprenderão com o livro Escúchate?

Em meu livro, aprenderão a importância de conhecer a si mesmos, entender a si mesmos. A ter gratidão. A ter aqueles elementos que esquecemos. É isso que meu livro aborda. Um belo lembrete e uma bela viagem de volta ao coração do ser humano.